Tuesday, October 27, 2015

Mãos talentosas

Benjamin Solomon Carson é um médico neurocirurgião pediátrico, psicólogo, escritor, professor e filantropo estadunidense. Carson entrou para a história da medicina no ano de 1987 ao separar gêmeos siameses unidos pela cabeça – um procedimento que levou cinco meses de planejamento, 50 horas na execução e que envolveu 70 médicos, enfermeiros e técnicos. Atualmente, é diretor do Departamento de Neurocirurgia Pediátrica do Hospital Johns Hopkins. Ele foi premiado com a Medalha Presidencial da Liberdade em 2008 pelo então presidente dos Estados Unidos George W.Bush, a maior honraria civil daquele país, dentre vários outros que o consagraram. Em 4 de maio de 2015, em um comício na sua cidade natal, Detroit, Carson anunciou que concorreria para a nomeação republicana na eleição presidencial de 2016.

Carson disse que teve dificuldades no início do ensino fundamental, tornando-se o pior aluno de sua classe e alvo de abuso de seus colegas, e desenvolveu, em seguida, um incontrolável temperamento agressivo.Determinada a mudar a vida de seu filho, a Sra. Carson limitou o tempo que Ben passava assistindo a televisão e se recusou a deixá-lo sair para jogar até que ele terminasse a lição de casa todos os dias. Ela exigiu a leitura de dois livros por semana, com relatórios escritos sobre o que lia, porém, devido às limitações de sua formação, mal conseguia ler os relatórios que Ben escrevia. Ben logo surpreendeu seus colegas e professores com novos conhecimentos, "Foi nesse momento que eu percebi que não era burro", recordou mais tarde. Um ano depois, Ben Carson foi considerado o melhor aluno de sua classe.

Depois de determinar que queria ser um psiquiatra, Carson se formou com honras no ensino médio, com a participação da Universidade Yale, onde obteve uma licenciatura em psicologia. Ele então estudou na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, onde seu interesse se deslocou para a neurocirurgia. Sua coordenação olho-mão e excelente capacidade de raciocínio fez dele um excelente cirurgião .Depois da escola médica ele se tornou o primeiro afro-americano residente de neurocirurgia do Hospital Johns Hopkins, em Baltimore. Aos 33 anos, tornou-se chefe dos residentes em neurocirurgia do hospital.


Thursday, October 22, 2015

Talvez

Há um antigo conto Taoista sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos.
Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
"Que má sorte!", eles disseram solidariamente.
"Talvez", o fazendeiro calmamente replicou.
Na manhã seguinte, o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.
"Que maravilhoso!", os vizinhos exclamaram.
"Talvez", replicou o velho homem.
No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna.
Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.
"Que pena", disseram.
"Talvez", respondeu o fazendeiro.
No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram.
Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
O velho olhou-os e, com um leve sorriso, disse suavemente:
"Talvez".
Quando um agente de mudança bater à sua porta, o melhor é dar-lhe boas-vindas e incorporá-lo à sua vida, aceitando a transformação. Afinal, sorte ou azar é também uma questão de ponto de vista.
(Autor desconhecido.)

Tuesday, October 20, 2015

A formiga boa

Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu: tique, tique, tique...
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
"Que quer?", perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
"Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu..."
A formiga olhou-a de alto a baixo.
"E que fez durante o bom tempo, que não construiu sua casa?"
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
"Eu cantava, bem sabe..."
"Ah!", exclamou a formiga recordando-se. "Era você então quem cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?"
"Isso mesmo, era eu..."
"Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraia e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre amiga, que aqui, terá cama e mesa durante todo o mau tempo."
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol.
(Monteiro Lobato - Fábulas, São Paulo, Editora Brasiliense, 1966)

A história do carrossel holandês

Até a Copa do Mundo de 1974, a participação da Holanda em Mundiais era pífia: havia jogado apenas em 1934 e 1938 quando somaram duas derrotas em igual número de jogos. Os holandeses chegaram à Alemanha em 74 dispostos a mudar isso e traziam uma grande geração de craques que haviam feito sucesso nas competições de clubes europeus.

Os holandeses, comandados pelo técnico Rinus Michel, trouxeram à Copa um novo conceito de organização em campo: o “futebol total”. Muita marcação-pressão para abafar o adversário e roubar a bola e multiplicidade de funções dos jogadores, sem se descuidar de sua função principal. Todo o meio-campo ajudava a marcar, incluindo Cruyff e os atacantes Rep e Rensenbrink. Sempre que um rival tinha a bola, dois, três laranjinhas chegavam e lhe tiravam a bola. Retomando a bola, o time buscava muito toque e movimentação constante de todos os jogadores pelo campo, com atacantes e defensores se revezando em um esquema com atletas de alto nível técnico.

O time ganhou o apelido de “carrossel holandês” e os adversários de 1974 foram caindo um a um. A Holanda ficou em primeiro no seu grupo vencendo Uruguai e Bulgária e empatando com a Suécia. Na segunda fase a Holanda atropelou a Argentina (4 a 0), a Alemanha Oriental (2 a 0) e o Brasil, então campeão mundial (2 a 0). O time laranja se classificou para a final com a Alemanha Ocidental e chegou a abrir o placar aos 8 minutos em um gol de pênalti.


Segundo Rep, que foi o artilheiro da Holanda nas Copas do Mundo, esse gol logo no começo foi uma maldição para a seleção holandesa. “Foi muito cedo, esquecemos de fazer o segundo e começamos a brincar. Os alemães começaram a ficar agressivos e perdemos uma final que todos esperavam que ganhássemos”, explica Rep.

O que o modelo do "futebol total" do "carrossel holandês" nos ensina em termos de organização? E de boa vontade?

De doméstica a ministra

O gabinete da mais nova ministra do Tribunal Superior do Trabalho, Delaíde Miranda Arantes, teria tudo para ser apenas mais uma suntuosa sala de trabalho do primeiro escalão do Judiciário não fossem duas pequenas fotos em preto e branco que decoram a mesa de trabalho da magistrada. Diminutas quando colocadas naquele amplo cenário de 70 metros quadrados com uma vista privilegiada do Lago Paranoá, as fotografias destoam da pompa que as cerca não pela simples moldura de madeira, mas sim pelo que retratam: duas dessas casinhas simplórias do interior rural brasileiro, pintadas com cal, com duas janelas e uma porta. As duas estão postadas sobre a longa mesa onde Delaíde dá expediente desde o dia 24 de março e dividem espaço com computadores de última geração, estantes repletas de obras de encadernação luxuosa e com móveis modernos que dão um ar sobriamente requintado ao gabinete.
As duas fotografias de cerca de 15 centímetros foram os únicos artigos pessoais que Delaíde levou para o gabinete. “Essas fotos são muito importantes para mim”, diz a ministra. “Foi nessas casas que passei minha infância, uma infância dura que me preparou para enfrentar todos os desafios que me fizeram chegar até aqui. Foi lá que comecei minha história.”
Em um país onde a inércia social sempre foi regra, Delaíde tem razão em orgulhar-se das duas pequenas casas que representam a epopeia que fez essa goiana de 58 anos abandonar a dura realidade do Brasil rural da década de 50 para alcançar um dos maiores postos do Judiciário brasileiro. Delaíde nasceu em uma delas, na pequena cidade de Pontalina, a 120 quilômetros da capital Goiânia. Filha de pequenos agricultores, passou a infância entre a diversão nas jabuticabeiras do sítio e a lida nas pequenas lavouras de feijão, arroz e milho que sustentaram sua família por décadas. “Aos 8 anos eu já ajudava meu pai na roça”, conta Delaíde.
Aos 16 anos, a ministra enfrentou o dilema que até hoje divide famílias rurais Brasil afora: continuar no campo trabalhando a terra pouco produtiva ou seguir para a cidade em busca de emprego para dar continuidade aos estudos. Optou por ser empregada doméstica a fim de conseguir estadia, comida e algum dinheiro para poder concluir o segundo grau. Por dois anos dividiu os cadernos com o escovão de aço, o ferro de passar roupa e a incômoda situação de saber ser explorada. Mesmo trabalhando as regulamentares oito horas diárias não recebia nem o equivalente ao salário mínimo. “Eu nem ao menos me lembro quanto era, mas só sei que era pouco, muito pouco.”
Foram dois anos assim. Ao terminar o segundo grau, Delaíde seguiu para Goiânia. Estava decidida a tornar-se advogada. Sem dinheiro para fazer um curso preparatório para o vestibular, começou a trabalhar como secretária em uma revendedora de tratores. “Passei quase dez anos trabalhando de dia e estudando à noite, até me formar em direito, aos 27 anos”, conta a magistrada. Já advogada, Delaíde especializou-se na área trabalhista, montou um escritório próprio em Goiânia e por três décadas defendeu empregados que, como ela na adolescência, se sentiam explorados por seus patrões. No ano passado, Delaíde foi indicada pela OAB para ocupar o cargo de ministra do TST e seu nome foi o escolhido entre outros dois indicados pela presidente Dilma Rousseff.
Agora, a ex-empregada doméstica tem o poder de decidir o destino de pelo menos 11 mil ações trabalhistas que estão sob sua alçada no TST. “São 11 mil processos, são 11 mil vidas. Cada processo é uma vida”, diz a ministra, que promete dar atenção especial àquelas mulheres que, como ela um dia, dedicam-se a cuidar da casa de terceiros. “O fato de o FGTS ser opcional para doméstica é resquício da escravidão. É preciso reformar a legislação trabalhista”, diz. Casada com o ex-deputado Aldo Arantes (PCdoB-GO) e mãe de duas filhas, Delaíde orgulha-se do passado difícil. “Fui privilegiada por Deus por ter tido essa experiência, o trabalho me tornou mais humanista.” As duas fotos em preto e branco sobre sua mesa não deixam ninguém esquecer disso.
Reportagem de 2011 na Isto É: http://www.istoe.com.br/reportagens/132371_DE+DOMESTICA+A+MINISTRA 

Embaixadora da Boa Vontade para os Refugiados

Angelina Jolie, atriz,  dubladora, diretora, produtora e roteirista norte-americana atua como Embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissionado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Tudo começou em 2001, quando recebeu o "script" de "Beyond Borders", um filme em que era convidada a interpretar a protagonista Sarah, uma americana que resolvera abandonar a sua fácil e fútil vida londrina para se tornar numa trabalhadora humanitária nos campos de refugiados da Chechênia. O filme ficaria na gaveta vários anos, mas Angelina passou de imediato à ação.

Em entrevista à CNN em 2007, Jolie afirmou: “Em Serra Leoa, eu tive a compreensão de que existem horrores reais no mundo e um tipo de crueldade e de violência que eu não sabia que existia. Eu desconhecia que as pessoas podiam sofrer daquela forma, tantas pessoas que tiveram braços e pernas sistematicamente cortados. Até crianças de três anos de idade sem braços e pernas porque eles foram cortados, ou amigos que tiveram que cortar mãos e pernas de outros amigos e ficaram traumatizados. Situações brutais que eu nunca tinha visto. Eu me senti tão ignorante, tão ingênua, verdadeiras atrocidades acontecendo ao redor do mundo. E eu sabia que como mulher, como ser humano, tinha a responsabilidade de me inteirar sobre isso, não deixar essas pessoas passarem despercebidas. Pessoalmente, eu sabia que precisava disso e para que nunca mais fosse confrontada com uma situação em que pensasse ‘meu Deus, como eu não sabia que isso estava acontecendo’. E quanto mais e mais eu conhecia os refugiados e famílias de refugiados, via uma força, um espírito que nunca vi antes em qualquer outra pessoa. Eles não vivem como vítimas. Eles certamente sabem que foram injustiçados e são muito inteligentes, isso geralmente é algo que as pessoas não conectam aos refugiados, pensam neles como um grupo de desesperados. Einstein foi um refugiado. Eles são, na verdade, algumas das pessoas mais inteligentes, resilientes do mundo. E muitos deles, antes de se tornarem refugiados, tinham vidas semelhantes às nossas”.

Durante as filmagens de "Tomb Raider", no Camboja, decidiu adoptar Maddox, então com sete meses. Interrogada por um jornalista sobre as suas motivações humanitárias, respondeu: "Gostaria que Maddox me recordasse não apenas como uma atriz que fez bem filmes e que por isso ganhou prêmios, mas também como alguém que se preocupou com os outros e que fez, ou que pelo menos tentou, com que o mundo fosse melhor para os outros".

Angelina Jolie, para além de emprestar a sua mediática imagem, contribui também com um terço dos seus rendimentos para a causa dos refugiados. Parece-nos ser um marketing demasiado caro para a promoção de uma atriz. Talvez seja melhor acreditarmos mais nas pessoas, na sua "boa vontade" - é para isso que temos uma embaixadora.

Em boas mãos

Amigos do Bem: http://revistagloborural.globo.com/EditoraGlobo/componentes/article/edg_article_print/0,3916,1334166-1641-1,00.html

A Ratoeira

A Ratoeira
Conto de autoria desconhecida

Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um
pacote. Pensou logo em que tipo de comida poderia estar ali.
Ficou aterrorizado quando descobriu que era uma ratoeira. Foi para o pátio da
fazenda advertindo a todos:
¯ Tem uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!
A galinha, que estava cacarejando e ciscando, levantou a cabeça e disse:
¯ Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que é um grande problema para o senhor, mas
não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato então foi até o cordeiro e disse a ele:
¯ Tem uma ratoeira na casa, uma ratoeira!
¯ Desculpe-me Sr. Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique
tranqüilo que o senhor será lembrado nas minhas preces.
O rato dirigiu-se então à vaca. Ela respondeu:
¯ O que Sr. Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!
Então o rato voltou para a casa, cabisbaixo e abatido, para encarar a ratoeira do
fazendeiro. Naquela noite ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira pegando sua
vítima. A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, não viu
que a ratoeira pegara a cauda de uma cobra venenosa. A cobra picou a mulher.
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre. Todo mundo
sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja. O
fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal: a galinha.
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la. Para
alimentá-los, o fazendeiro matou o cordeiro.
A mulher não melhorou e acabou morrendo. Muita gente veio para o funeral. O
fazendeiro então sacrificou a vaca para alimentar todo aquele povo.
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e
acreditar que o problema não lhe diz respeito lembre-se que, quando há uma

ratoeira na casa, toda a fazenda corre risco.

Tuesday, October 6, 2015

Ele faz chover - Takeshi Imai

Depois de produzir chuvas artificiais, o engenheiro Takeshi Imai inova com a árvore-flecha. É sua solução para reflorestar áreas devastadas e de difícil acesso
Darcio Oliveira, Época Negócios

O engenheiro Takeshi Imai, de 68 anos, olhou para o céu claro de Bragança Paulista, balançou a cabeça e informou, um tanto desolado: “É uma pena, mas hoje não vai dar pra fazer chover. Não tem nenhuma cumulus congestus”. Diante de minha ignorância meteorológica, foi logo explicando: “Cumulus congestus é um tipo de nuvem que lembra uma couve-flor. Costumo dizer que são as nossas matérias-primas, pois é a partir delas que conseguimos precipitar as chuvas”. Eis o ganha-pão de Imai: a produção e venda de chuvas artificiais localizadas, uma atividade que vem ganhando especial relevância em tempos de aquecimento global e constantes alterações climáticas. Diferentemente de outros métodos de precipitação, que usam substâncias químicas como cloreto de sódio e iodeto de prata, o processo patenteado pelo inventor e operado por sua empresa, a ModClima, é puramente físico, uma reação de água com água. “A adição de produtos químicos já foi banida de alguns países, por representar riscos para a saúde”, afirma Imai. “Eu criei algo eficaz e ao mesmo tempo ecológico.”

Funciona assim: a bordo de um Piper Asteca, um avião bimotor dotado de um reservatório de 300 litros de água potável, a equipe da ModClima despeja micropartículas de água na base de nuvens previamente identificadas por softwares especializados. Somadas às gotículas já existentes na nuvem, as tais micropartículas produzem gotas maiores que, devido ao peso, precipitam a chuva. Em outras palavras, as gotas se unem e formam os pingos. A engenhosidade de Imai está na capacidade de controlar o tamanho da gota que será “semeada”. Isto ocorre graças a quatro bicos rotativos – que também funcionam como pulverizadores – acoplados na parte externa do avião. Para cada litro de água semeada são produzidos cerca de 500 mil litros de água de chuva, o equivalente ao carregamento de 50 caminhões-pipas. “A vantagem é que podemos direcionar a chuva para locais específicos, como reservatórios, mananciais e áreas agricultáveis”, afirma Imai. As chuvas duram, em média, de uma a três horas.

Árvore-flecha
Formado em engenharia mecânica pelo Mackenzie e mestre pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, Imai trabalha e mora (sozinho) no hangar de número 3 do pequeno aeroporto de Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Inquieto e falante, é capaz de passar horas explicando suas invenções – que não são poucas –, ou dissertando sobre como os inovadores brasileiros sofrem com a falta de incentivos financeiros. “Olha isso aqui”, diz, apontando para um quadro na parede da sala de reuniões do hangar. “É o certificado que representa a medalha de ouro no Simpósio Internacional da Água, em Cannes. Lá fora eu sou premiado e aqui enfrento ceticismo em relação ao meu trabalho.” Sua ModClima ainda não está no azul. O faturamento no ano passado bateu em R$ 1,8 milhão, mas o que entra no caixa dissipa-se rapidamente, sob efeito da folha de pagamento de sete funcionários, dos gastos com combustíveis e manutenção dos dois aviões (além do Piper, há um Cessna 172) ou dos custos com os projetos piloto para cada uma das novas invenções. O orçamento da empresa não acompanha o ritmo de ideias de Imai.

No momento, por exemplo, a ModClima desenvolve a árvore-flecha. É exatamente o que o nome sugere. Em breve, o Cessna cortará os céus do Brasil, sobre regiões devastadas e de difícil acesso, e lançará – por meio de um sistema de balística – diversas setas de bambu que carregam mudas nativas acondicionadas em pequenos tubos biodegradáveis feitos de papel kraft (papelão). “Demoramos um bom tempo para calibrar a velocidade de lançamento e achar o material ideal para compor a flecha e os tubetes que levam as mudas”, conta Imai. O caso do bambu é curioso. Jogado do avião, o material mantinha a direção certa, exibia boa resistência e quase sempre acertava o alvo previamente estabelecido pela equipe da ModClima. Mas a flecha descia com tal velocidade que acabava completamente enterrada no solo, o que poderia comprometer a integridade das mudas. A intenção era que apenas espetasse o solo, o suficiente para fazer com que o papelão rompesse e colocasse a planta em contato com a terra. A saída encontrada por Imai foi colocar na parte de cima da flecha uma tira de papel, à guisa de rabiola de pipas, para freá-la. O problema foi resolvido. “Pensei em usar o bambu depois de ver os espetinhos de churrasco. E a embalagem de papelão para as mudas foi inspirada no formato da embalagem das batatinhas do McDonald’s”, conta, sorrindo, o inventor.

Quanto às mudas, são espécies nativas delineadas por botânicos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP. Acondicionadas por dez dias em estufas, as espécies recebem um hormônio enraizador – para acelerar o processo de metabolismo – antes de seguir para a embalagem cartonada. “Já fizemos algumas experiências e o resultado foi animador”, diz Majory Imai, filha de Takeshi e diretora da ModClima. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, Sabesp, gostou da ideia e vai financiar novos testes. As árvores-flechas serão lançadas neste mês em uma área de proteção de mananciais da empresa, localizada na cidade de Piracaia (SP), onde a ONG The Nature Conservancy já faz um trabalho de revegetação em larga escala. O esforço faz parte do projeto “Um Milhão de Árvores no Sistema Cantareira”, patrocinado pela estatal.

Infográfico_Alexandre Affonso
Água para lavouras
A Sabesp entrou para a história de Imai no biênio 2003/2004, período de escassez de chuvas no Sudeste, sobretudo em São Paulo. O engenheiro ficou sabendo – tarde demais – de uma concorrência para a produção de chuvas artificiais vencida por uma empresa que usava o processo químico. A grita dos ambientalistas foi tanta que a Sabesp cancelou o contrato. Era a deixa para Imai se apresentar, com seu método limpo e inédito. Desconfiada, a Sabesp pediu aos profissionais do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que conversassem com o nissei. Imai explicou o processo, convenceu os cientistas e os executivos e fez chover no Sistema Cantareira e no Alto Tietê. Dados da empresa mostram que a ModClima foi responsável por 31% das chuvas nos reservatórios da região entre outubro de 2003 e fevereiro de 2004. “Das 200 nuvens semeadas, 160 precipitaram”, diz Rodolfo Baroncelli, consultor da área ambiental da Sabesp.

A tabelinha entre a estatal e a ModClima prosseguiu nos anos seguintes, com uma chuvinha aqui, outra ali, até que a Sabesp pediu para Imai segurar um pouco a onda. São Pedro já estava fazendo sua parte, até demais. Imai pediu licença à sua parceira exclusiva e voou até o Nordeste em busca de clientes privados. Deparou-se com agricultores do oeste da Bahia e do Maranhão e com usineiros de Pernambuco, desesperados com a falta de água na região. De acordo com Jáson Torres, da Arrowplan, uma empresa que estimula a propriedade intelectual – fazendo a interface entre os cientistas e a iniciativa privada –, a atuação da ModClima na propriedade de dois usineiros pernambucanos no começo deste ano alcançou resultados fantásticos. “Dos nove voos que eles fizeram, oito provocaram chuvas”, afirma Torres. Ele conta que a ModClima mantém conversas adiantadas com a Secretaria de Recursos Hídricos de Pernambuco para um projeto que deve englobar os municípios que mais sofrem com os períodos de seca. Seria o primeiro contrato de alcance estadual da empresa de Imai.

Majory e Takeshi Imai sabem que há um potencial enorme pela frente. Ajudar no reflorestamento e fazer chuvas são atividades de grande relevância social, econômica e em sintonia com as políticas de sustentabilidade propostas pela Organização das Nações Unidas. No ano que vem, a ONU dará início à década de combate à desertificação. Dados atuais mostram que um terço do planeta é formado por terras secas (árida, semiárida ou semiúmida). “Existe uma tecnologia brasileira, limpa, já aplicável, e que funciona”, diz Majory. “Vamos levar essa proposta para a ONU e tentar conquistar o apoio da organização para o combate à seca.” Um encontro entre Majory e Luc Gnacadja, secretário executivo da UNCCD (sigla em inglês para a convenção de combate à desertificação da ONU), deverá acontecer ainda este mês na Alemanha.

Em 1971, Imai foi tratado como um herói, ao inventar um meio
de acabar com a ferrugem que atacou cafezais

Não chuva
Ao mesmo tempo em que buscam o apoio da ONU para os projetos de produção de chuva, os Imai estudam uma solução para outro problema climático: o excesso de chuva em algumas regiões. Se é possível produzi-las, por que não seria viável evitá-las? O desafio foi lançado por Majory e prontamente aceito pelo patriarca. “Meu pai estudou o assunto e veio com a solução”, diz ela. Softwares meteorológicos identificariam as formações e dariam a indicação necessária para que a empresa “antecipasse” a chuva – prevista para determinadas regiões – em áreas que pudessem minimizar os impactos de uma calamidade (oceanos, por exemplo). Igualmente possível é dissipar nuvens que pairam sobre áreas de risco, aplicando-lhes gelo seco. “Ele [o gelo] vai sublimar e abrir buracos nas nuvens, evitando a chuva.” O Inpe e o ITA trabalham em conjunto com a ModClima para tentar viabilizar a patente da “Não Chuva”. Segundo o professor Kleber Nacarato, do Inpe, o processo não causa danos ao clima, por ser pontual e restrito a uma pequena área.

Além de evitar a formação de tempestades que podem causar desastres e colocar cidades e população em situações de emergência, o projeto também visa a atender obras de infraestrutura a céu aberto, que necessitam de tempo firme para que possam ser concluídas. A Petrobras, preocupada com a construção de gasodutos, mostrou-se interessada no novo processo. As conversas entre as empresas estão na fase inicial.

Os Imai sonham com tempos melhores para a ModClima. E isto, segundo o patriarca, não significa a obtenção de lucros estratosféricos. “Não montei a empresa com o intuito de enriquecer. Sou um inventor e quero ver minhas criações sendo aplicadas na prática”, diz. Não foram poucas invenções. Em 1971, Takeshi Imai foi tratado como herói nacional quando sua empresa, a Hatsuta, inventou um pulverizador que combatia a ferrugem nos cafezais, um mal que ameaçava acabar com boa parte das plantações em São Paulo. Também se destacou ao apresentar para o mercado motosserras compactas e mais velozes que as convencionais. Tudo caminhava bem para Imai. Até que um jacarandá de 250 anos mudou a história do inventor. O episódio ocorreu em Linhares (ES), na década de 90. Imai levou duas dezenas de motosserras para serem testadas por potenciais clientes numa floresta da região. Queria provar que o equipamento era melhor do que o dos rivais. “Durante uma hora e meia vi minha máquina rasgando o tronco de um jacarandá de 250 anos. Ainda lembro do barulho ensurdecedor da árvore caindo e do silêncio profundo que se fez após o baque”, conta Imai. Pouco tempo depois, ele fechou as portas da empresa. “Decidi que minhas invenções deveriam servir à natureza.”

Foi então que começou a fazer chover. Mas só em dias de cumulus congestus.



Monday, October 5, 2015

Uma nova visão

Criado em um orfanato de São Paulo e adotado por uma família de Brasília, o paulistano Alex Sandro dos Santos, 34, fugiu aos 11 anos de volta para a capital paulista em busca dos parentes biológicos. Após duas passagens pela antiga Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor, atual Fundação Casa), foi preso aos 18 anos por assalto à mão armada. Sua pena: uma década em que passou por seis cadeias diferentes.

"A única coisa que eu queria era mudar minha vida", conta Santos, sobre quando retornou à liberdade, em abril de 2014. Conheceu a Renovatio, uma Oscip (organização da sociedade civil de interesse público), e se integrou ao projeto Ver Bem, onde recebeu oportunidade de trabalho e de desenvolvimento educacional e cultural. Foi aí que sua vida começou a mudar.

A organização –formada por 35 voluntários, alunos de economia e administração do Insper (Instituto de Pesquisa e Ensino)– há pouco mais de um ano produz óculos de grau feitos com uma tecnologia de baixo custo. As peças são doadas para pacientes com receitas do SUS.

Para a produção, a Renovatio contrata pessoas em situação de vulnerabilidade social, como ex-presidiários, refugiados e moradores de comunidades. Eles também desenvolvem atividades educacionais, culturais e plano de carreira para os beneficiados.

"Isso [o projeto] é meu alicerce, que me dá oportunidade de me reerguer e mostrar que sou capaz e que posso ajudar alguém", afirma Santos, que produz 30 óculos por semana, atende os pacientes que chegam ao Instituto da Visão, recebe R$ 800 por mês e se prepara para realizar o sonho de cursar gastronomia.

Para fazer parte do projeto Ver Bem e ser beneficiado com a bolsa que varia de R$ 800 a R$ 1.400, é preciso obrigatoriamente estudar e fazer as atividades culturais propostas pelos membros da Renovatio, desenvolvidas por um professor de história. Cerca de 50% do valor da bolsa depende do desempenho nos estudos, atividades culturais e da meta de produção de óculos de cada um.

"O principal objetivo é que essas pessoas estudem, trabalhem as habilidades linguísticas, o pensamento crítico e a erudição para que, assim, consigam escolher um caminho para seguir na vida", explica Fábio Rodas Blanco, 22, presidente e cofundador da Renovatio.

No elo educacional, os beneficiados que não são plenamente alfabetizados passam por curso de letramento para depois seguirem os demais estudos. Eles devem se preparar para o vestibular ou carreira técnica. Testes vocacionais e entrevistas também são realizados para indicação de cursos específicos para a carreira almejada.

Idas a museus e cine debates, por exemplo, estão incluídas na parte cultural. Além disso, cada beneficiado tem a meta de produzir sete óculos por dia.

"Não queremos que a pessoa entre no projeto para ficar produzindo óculos para sempre, a permanência dela é de no máximo três anos. Queremos desenvolvê-la para que empreenda, consiga um emprego que pague mais que o projeto e que saia mais autônoma de que quando entrou", diz Blanco. Conforme um beneficiado deixa o projeto, abre vaga para o outro.

Desde fevereiro de 2014, a Renovatio é o braço no Brasil da ONG alemã One Dollar Glasses, criadora da técnica. Com a tecnologia, é possível fabricar óculos feitos de aço, plástico hipoalérgico e lentes de policarbonato por U$ 1 (cerca de R$ 3,60). No entanto, incluindo as taxas de impostos para importar o material e os custos com o beneficiado, cada um sai por R$ 25 para os brasileiros. Pessoas com diagnóstico de miopia, hipermetropia, presbiopia podem receber os óculos.

Para a distribuição em São Paulo, a Renovatio mantém uma parceria com a Escola Paulista de Medicina, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), com o Instituto da Visão e agora também com a Faculdade de Medicina do ABC, que divulgam o trabalho e indicam o posto de distribuição e fabricação, que fica no Instituto da Visão, aos pacientes.

http://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/2015/08/1672996-jovens-criam-fabrica-oculos-de-grau-e-doam-as-pecas-para-pacientes-do-sus.shtml

O homem que faz chover

O brasileiro Takeshi Imai inventou um método e fazer chover. Deu certo Sua tecnologia foi adotada pela Sabesp e recebeu prêmio na França.

'Era um jacarandá de 250 anos. Aquilo mexeu comigo. Desde então, decidi que minhas invenções serviriam à natureza, e não contra ela.'  A derrubada da árvore de lei com a potente motosserra que sua empresa fabricava, na década de 1970, fez com que o engenheiro mecânico Takeshi Imai mudasse completamente de vida. A partir de então, abandonou a produção de motosserras e pulverizadores de inseticidas e dedicou-se ao estudo dos fenômenos meteorológicos.  Após 20 anos de pesquisa, desenvolveu teorias que o levaram a ser premiado na França pela mais promissora de suas invenções: um método ecológico de produzir chuvas localizadas, ou seja, no local exato em que são necessárias. 'É uma tenologia nova, única no mundo', explicou Imai.

O processo é simples, limpo e não utiliza aditivos químicos p como o iodeto de prata, proibido nos Estados Unidos desde os anos 1980 por ter causado graves doenças pulmonares na Bacia do Potomac.  A bordo de um avião bimotor (foto na página ao lado, com um reservatório de 300 litros de água potável acoplado, a equipe de Takeshi entra na nuvem e despeja água pura.  As gotículas de água já existentes na nuvem unem-se às novas aplicadas pelo avião, formando gotas maiores, que, devido ao peso, precipitam a chuva em 15 a 20 minutos.  Imai garante que, para cada litro de água semeado, são produzidos cerca de 500 mil litros de água de chuva ou 50 caminhões-pipa.

A ModClima, empresa que Imai fundou para produzir as chuvas artificiais, possui uma base no aeroporto de Bragança, onde também fica um potente radar para detectar as nuvens que podem ser 'semeadas', o único desse modelo na América Latina.  A tecnologia é 100% brasileira e começou a ser desenvolvida em 2001. No ano seguinte, foi apresentada no 12º Congresso Brasileiro de Meteorologia, em Foz do Iguaçu (PR). Em 2005, ganhou a Medalha de Ouro da Ciência da Água no 7º Simpósio Internacional da Água, em Cannes, na França.

A parceria com a Sabesp (Companhia de Abastecimento e Saneamento Básico do Estado de São Paulo) vem desde 2003, quando a ModClima ajudou a evitar o racionamento de água devido à escassez de chuvas nas regiões de mananciais. Segundo a Sabesp, Imai foi responsável por 31% das chuvas na Bacia do Sistema Cantareira, área de 3 mil quilômetros quadrados que vai de Camanducaia a Bragança Paulista e abastece 9 milhões de pessoas.  Das 200 nuvens semeadas, 160 precipitaram, contribuindo significativamente para encher os reservatórios de São Paulo.

Aos 67 anos, Takeshi Imai continua a estudar para aprimorar sua invenção e para encontrar novas formas de ajudar a natureza. Um de seus projetos é o reflorestamento aéreo com as 'árvores-flechas' - para ser lançadas de avião -, por meio do qual é possível plantar 50 mil mudas por hora.  'Onde não há vegetação, não há nuvens, e sem nuvens é impossível fazer chover, afirma Imai. 

'Minha preocupação não é ganhar dinheiro, mas achar soluções urgentes para deter a degradação do planeta e o acelerado processo de aquecimento global', diz Imai. 'As mudanças climáticas são muito mais sérias do que dizem.'  
Revista Welcome on Board, dez/2008 / jan/2009, págs. 58, 59)