Depois de produzir chuvas artificiais, o engenheiro Takeshi
Imai inova com a árvore-flecha. É sua solução para reflorestar áreas devastadas
e de difícil acesso
Darcio Oliveira, Época Negócios
O engenheiro Takeshi Imai, de 68 anos, olhou para o céu
claro de Bragança Paulista, balançou a cabeça e informou, um tanto desolado: “É
uma pena, mas hoje não vai dar pra fazer chover. Não tem nenhuma cumulus
congestus”. Diante de minha ignorância meteorológica, foi logo explicando:
“Cumulus congestus é um tipo de nuvem que lembra uma couve-flor. Costumo dizer
que são as nossas matérias-primas, pois é a partir delas que conseguimos
precipitar as chuvas”. Eis o ganha-pão de Imai: a produção e venda de chuvas
artificiais localizadas, uma atividade que vem ganhando especial relevância em
tempos de aquecimento global e constantes alterações climáticas. Diferentemente
de outros métodos de precipitação, que usam substâncias químicas como cloreto
de sódio e iodeto de prata, o processo patenteado pelo inventor e operado por
sua empresa, a ModClima, é puramente físico, uma reação de água com água. “A
adição de produtos químicos já foi banida de alguns países, por representar
riscos para a saúde”, afirma Imai. “Eu criei algo eficaz e ao mesmo tempo
ecológico.”
Funciona assim: a bordo de um Piper Asteca, um avião bimotor
dotado de um reservatório de 300 litros de água potável, a equipe da ModClima
despeja micropartículas de água na base de nuvens previamente identificadas por
softwares especializados. Somadas às gotículas já existentes na nuvem, as tais
micropartículas produzem gotas maiores que, devido ao peso, precipitam a chuva.
Em outras palavras, as gotas se unem e formam os pingos. A engenhosidade de
Imai está na capacidade de controlar o tamanho da gota que será “semeada”. Isto
ocorre graças a quatro bicos rotativos – que também funcionam como pulverizadores
– acoplados na parte externa do avião. Para cada litro de água semeada são
produzidos cerca de 500 mil litros de água de chuva, o equivalente ao
carregamento de 50 caminhões-pipas. “A vantagem é que podemos direcionar a
chuva para locais específicos, como reservatórios, mananciais e áreas
agricultáveis”, afirma Imai. As chuvas duram, em média, de uma a três horas.
Árvore-flecha
Formado em engenharia mecânica pelo Mackenzie e mestre pelo
Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, Imai trabalha e mora (sozinho) no
hangar de número 3 do pequeno aeroporto de Bragança Paulista, no interior de
São Paulo. Inquieto e falante, é capaz de passar horas explicando suas
invenções – que não são poucas –, ou dissertando sobre como os inovadores
brasileiros sofrem com a falta de incentivos financeiros. “Olha isso aqui”,
diz, apontando para um quadro na parede da sala de reuniões do hangar. “É o
certificado que representa a medalha de ouro no Simpósio Internacional da Água,
em Cannes. Lá fora eu sou premiado e aqui enfrento ceticismo em relação ao meu
trabalho.” Sua ModClima ainda não está no azul. O faturamento no ano passado
bateu em R$ 1,8 milhão, mas o que entra no caixa dissipa-se rapidamente, sob
efeito da folha de pagamento de sete funcionários, dos gastos com combustíveis
e manutenção dos dois aviões (além do Piper, há um Cessna 172) ou dos custos
com os projetos piloto para cada uma das novas invenções. O orçamento da
empresa não acompanha o ritmo de ideias de Imai.
No momento, por exemplo, a ModClima desenvolve a
árvore-flecha. É exatamente o que o nome sugere. Em breve, o Cessna cortará os
céus do Brasil, sobre regiões devastadas e de difícil acesso, e lançará – por
meio de um sistema de balística – diversas setas de bambu que carregam mudas
nativas acondicionadas em pequenos tubos biodegradáveis feitos de papel kraft
(papelão). “Demoramos um bom tempo para calibrar a velocidade de lançamento e
achar o material ideal para compor a flecha e os tubetes que levam as mudas”,
conta Imai. O caso do bambu é curioso. Jogado do avião, o material mantinha a
direção certa, exibia boa resistência e quase sempre acertava o alvo
previamente estabelecido pela equipe da ModClima. Mas a flecha descia com tal
velocidade que acabava completamente enterrada no solo, o que poderia
comprometer a integridade das mudas. A intenção era que apenas espetasse o
solo, o suficiente para fazer com que o papelão rompesse e colocasse a planta
em contato com a terra. A saída encontrada por Imai foi colocar na parte de
cima da flecha uma tira de papel, à guisa de rabiola de pipas, para freá-la. O
problema foi resolvido. “Pensei em usar o bambu depois de ver os espetinhos de
churrasco. E a embalagem de papelão para as mudas foi inspirada no formato da
embalagem das batatinhas do McDonald’s”, conta, sorrindo, o inventor.
Quanto às mudas, são espécies nativas delineadas por
botânicos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP.
Acondicionadas por dez dias em estufas, as espécies recebem um hormônio
enraizador – para acelerar o processo de metabolismo – antes de seguir para a
embalagem cartonada. “Já fizemos algumas experiências e o resultado foi
animador”, diz Majory Imai, filha de Takeshi e diretora da ModClima. A
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, Sabesp, gostou da ideia
e vai financiar novos testes. As árvores-flechas serão lançadas neste mês em
uma área de proteção de mananciais da empresa, localizada na cidade de Piracaia
(SP), onde a ONG The Nature Conservancy já faz um trabalho de revegetação em
larga escala. O esforço faz parte do projeto “Um Milhão de Árvores no Sistema
Cantareira”, patrocinado pela estatal.
Infográfico_Alexandre Affonso
Água para lavouras
A Sabesp entrou para a história de Imai no biênio 2003/2004,
período de escassez de chuvas no Sudeste, sobretudo em São Paulo. O engenheiro
ficou sabendo – tarde demais – de uma concorrência para a produção de chuvas
artificiais vencida por uma empresa que usava o processo químico. A grita dos
ambientalistas foi tanta que a Sabesp cancelou o contrato. Era a deixa para
Imai se apresentar, com seu método limpo e inédito. Desconfiada, a Sabesp pediu
aos profissionais do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que
conversassem com o nissei. Imai explicou o processo, convenceu os cientistas e
os executivos e fez chover no Sistema Cantareira e no Alto Tietê. Dados da
empresa mostram que a ModClima foi responsável por 31% das chuvas nos
reservatórios da região entre outubro de 2003 e fevereiro de 2004. “Das 200
nuvens semeadas, 160 precipitaram”, diz Rodolfo Baroncelli, consultor da área
ambiental da Sabesp.
A tabelinha entre a estatal e a ModClima prosseguiu nos anos
seguintes, com uma chuvinha aqui, outra ali, até que a Sabesp pediu para Imai
segurar um pouco a onda. São Pedro já estava fazendo sua parte, até demais.
Imai pediu licença à sua parceira exclusiva e voou até o Nordeste em busca de
clientes privados. Deparou-se com agricultores do oeste da Bahia e do Maranhão
e com usineiros de Pernambuco, desesperados com a falta de água na região. De
acordo com Jáson Torres, da Arrowplan, uma empresa que estimula a propriedade
intelectual – fazendo a interface entre os cientistas e a iniciativa privada –,
a atuação da ModClima na propriedade de dois usineiros pernambucanos no começo
deste ano alcançou resultados fantásticos. “Dos nove voos que eles fizeram,
oito provocaram chuvas”, afirma Torres. Ele conta que a ModClima mantém
conversas adiantadas com a Secretaria de Recursos Hídricos de Pernambuco para
um projeto que deve englobar os municípios que mais sofrem com os períodos de
seca. Seria o primeiro contrato de alcance estadual da empresa de Imai.
Majory e Takeshi Imai sabem que há um potencial enorme pela
frente. Ajudar no reflorestamento e fazer chuvas são atividades de grande
relevância social, econômica e em sintonia com as políticas de sustentabilidade
propostas pela Organização das Nações Unidas. No ano que vem, a ONU dará início
à década de combate à desertificação. Dados atuais mostram que um terço do
planeta é formado por terras secas (árida, semiárida ou semiúmida). “Existe uma
tecnologia brasileira, limpa, já aplicável, e que funciona”, diz Majory. “Vamos
levar essa proposta para a ONU e tentar conquistar o apoio da organização para
o combate à seca.” Um encontro entre Majory e Luc Gnacadja, secretário
executivo da UNCCD (sigla em inglês para a convenção de combate à
desertificação da ONU), deverá acontecer ainda este mês na Alemanha.
Em 1971, Imai foi tratado como um herói, ao inventar um meio
de acabar com a ferrugem que atacou cafezais
Não chuva
Ao mesmo tempo em que buscam o apoio da ONU para os projetos
de produção de chuva, os Imai estudam uma solução para outro problema
climático: o excesso de chuva em algumas regiões. Se é possível produzi-las,
por que não seria viável evitá-las? O desafio foi lançado por Majory e
prontamente aceito pelo patriarca. “Meu pai estudou o assunto e veio com a
solução”, diz ela. Softwares meteorológicos identificariam as formações e
dariam a indicação necessária para que a empresa “antecipasse” a chuva –
prevista para determinadas regiões – em áreas que pudessem minimizar os
impactos de uma calamidade (oceanos, por exemplo). Igualmente possível é
dissipar nuvens que pairam sobre áreas de risco, aplicando-lhes gelo seco. “Ele
[o gelo] vai sublimar e abrir buracos nas nuvens, evitando a chuva.” O Inpe e o
ITA trabalham em conjunto com a ModClima para tentar viabilizar a patente da
“Não Chuva”. Segundo o professor Kleber Nacarato, do Inpe, o processo não causa
danos ao clima, por ser pontual e restrito a uma pequena área.
Além de evitar a formação de tempestades que podem causar
desastres e colocar cidades e população em situações de emergência, o projeto
também visa a atender obras de infraestrutura a céu aberto, que necessitam de
tempo firme para que possam ser concluídas. A Petrobras, preocupada com a
construção de gasodutos, mostrou-se interessada no novo processo. As conversas
entre as empresas estão na fase inicial.
Os Imai sonham com tempos melhores para a ModClima. E isto,
segundo o patriarca, não significa a obtenção de lucros estratosféricos. “Não
montei a empresa com o intuito de enriquecer. Sou um inventor e quero ver
minhas criações sendo aplicadas na prática”, diz. Não foram poucas invenções.
Em 1971, Takeshi Imai foi tratado como herói nacional quando sua empresa, a
Hatsuta, inventou um pulverizador que combatia a ferrugem nos cafezais, um mal
que ameaçava acabar com boa parte das plantações em São Paulo. Também se
destacou ao apresentar para o mercado motosserras compactas e mais velozes que
as convencionais. Tudo caminhava bem para Imai. Até que um jacarandá de 250
anos mudou a história do inventor. O episódio ocorreu em Linhares (ES), na
década de 90. Imai levou duas dezenas de motosserras para serem testadas por
potenciais clientes numa floresta da região. Queria provar que o equipamento
era melhor do que o dos rivais. “Durante uma hora e meia vi minha máquina
rasgando o tronco de um jacarandá de 250 anos. Ainda lembro do barulho
ensurdecedor da árvore caindo e do silêncio profundo que se fez após o baque”,
conta Imai. Pouco tempo depois, ele fechou as portas da empresa. “Decidi que
minhas invenções deveriam servir à natureza.”
Foi então que começou a fazer chover. Mas só em dias de
cumulus congestus.
No comments:
Post a Comment