"A única coisa que eu queria era mudar minha vida", conta Santos, sobre quando retornou à liberdade, em abril de 2014. Conheceu a Renovatio, uma Oscip (organização da sociedade civil de interesse público), e se integrou ao projeto Ver Bem, onde recebeu oportunidade de trabalho e de desenvolvimento educacional e cultural. Foi aí que sua vida começou a mudar.
A organização –formada por 35 voluntários, alunos de economia e administração do Insper (Instituto de Pesquisa e Ensino)– há pouco mais de um ano produz óculos de grau feitos com uma tecnologia de baixo custo. As peças são doadas para pacientes com receitas do SUS.
Para a produção, a Renovatio contrata pessoas em situação de vulnerabilidade social, como ex-presidiários, refugiados e moradores de comunidades. Eles também desenvolvem atividades educacionais, culturais e plano de carreira para os beneficiados.
"Isso [o projeto] é meu alicerce, que me dá oportunidade de me reerguer e mostrar que sou capaz e que posso ajudar alguém", afirma Santos, que produz 30 óculos por semana, atende os pacientes que chegam ao Instituto da Visão, recebe R$ 800 por mês e se prepara para realizar o sonho de cursar gastronomia.
Para fazer parte do projeto Ver Bem e ser beneficiado com a bolsa que varia de R$ 800 a R$ 1.400, é preciso obrigatoriamente estudar e fazer as atividades culturais propostas pelos membros da Renovatio, desenvolvidas por um professor de história. Cerca de 50% do valor da bolsa depende do desempenho nos estudos, atividades culturais e da meta de produção de óculos de cada um.
"O principal objetivo é que essas pessoas estudem, trabalhem as habilidades linguísticas, o pensamento crítico e a erudição para que, assim, consigam escolher um caminho para seguir na vida", explica Fábio Rodas Blanco, 22, presidente e cofundador da Renovatio.
No elo educacional, os beneficiados que não são plenamente alfabetizados passam por curso de letramento para depois seguirem os demais estudos. Eles devem se preparar para o vestibular ou carreira técnica. Testes vocacionais e entrevistas também são realizados para indicação de cursos específicos para a carreira almejada.
Idas a museus e cine debates, por exemplo, estão incluídas na parte cultural. Além disso, cada beneficiado tem a meta de produzir sete óculos por dia.
"Não queremos que a pessoa entre no projeto para ficar produzindo óculos para sempre, a permanência dela é de no máximo três anos. Queremos desenvolvê-la para que empreenda, consiga um emprego que pague mais que o projeto e que saia mais autônoma de que quando entrou", diz Blanco. Conforme um beneficiado deixa o projeto, abre vaga para o outro.
Desde fevereiro de 2014, a Renovatio é o braço no Brasil da ONG alemã One Dollar Glasses, criadora da técnica. Com a tecnologia, é possível fabricar óculos feitos de aço, plástico hipoalérgico e lentes de policarbonato por U$ 1 (cerca de R$ 3,60). No entanto, incluindo as taxas de impostos para importar o material e os custos com o beneficiado, cada um sai por R$ 25 para os brasileiros. Pessoas com diagnóstico de miopia, hipermetropia, presbiopia podem receber os óculos.
Para a distribuição em São Paulo, a Renovatio mantém uma parceria com a Escola Paulista de Medicina, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), com o Instituto da Visão e agora também com a Faculdade de Medicina do ABC, que divulgam o trabalho e indicam o posto de distribuição e fabricação, que fica no Instituto da Visão, aos pacientes.
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