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Tuesday, October 6, 2015

Ele faz chover - Takeshi Imai

Depois de produzir chuvas artificiais, o engenheiro Takeshi Imai inova com a árvore-flecha. É sua solução para reflorestar áreas devastadas e de difícil acesso
Darcio Oliveira, Época Negócios

O engenheiro Takeshi Imai, de 68 anos, olhou para o céu claro de Bragança Paulista, balançou a cabeça e informou, um tanto desolado: “É uma pena, mas hoje não vai dar pra fazer chover. Não tem nenhuma cumulus congestus”. Diante de minha ignorância meteorológica, foi logo explicando: “Cumulus congestus é um tipo de nuvem que lembra uma couve-flor. Costumo dizer que são as nossas matérias-primas, pois é a partir delas que conseguimos precipitar as chuvas”. Eis o ganha-pão de Imai: a produção e venda de chuvas artificiais localizadas, uma atividade que vem ganhando especial relevância em tempos de aquecimento global e constantes alterações climáticas. Diferentemente de outros métodos de precipitação, que usam substâncias químicas como cloreto de sódio e iodeto de prata, o processo patenteado pelo inventor e operado por sua empresa, a ModClima, é puramente físico, uma reação de água com água. “A adição de produtos químicos já foi banida de alguns países, por representar riscos para a saúde”, afirma Imai. “Eu criei algo eficaz e ao mesmo tempo ecológico.”

Funciona assim: a bordo de um Piper Asteca, um avião bimotor dotado de um reservatório de 300 litros de água potável, a equipe da ModClima despeja micropartículas de água na base de nuvens previamente identificadas por softwares especializados. Somadas às gotículas já existentes na nuvem, as tais micropartículas produzem gotas maiores que, devido ao peso, precipitam a chuva. Em outras palavras, as gotas se unem e formam os pingos. A engenhosidade de Imai está na capacidade de controlar o tamanho da gota que será “semeada”. Isto ocorre graças a quatro bicos rotativos – que também funcionam como pulverizadores – acoplados na parte externa do avião. Para cada litro de água semeada são produzidos cerca de 500 mil litros de água de chuva, o equivalente ao carregamento de 50 caminhões-pipas. “A vantagem é que podemos direcionar a chuva para locais específicos, como reservatórios, mananciais e áreas agricultáveis”, afirma Imai. As chuvas duram, em média, de uma a três horas.

Árvore-flecha
Formado em engenharia mecânica pelo Mackenzie e mestre pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, Imai trabalha e mora (sozinho) no hangar de número 3 do pequeno aeroporto de Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Inquieto e falante, é capaz de passar horas explicando suas invenções – que não são poucas –, ou dissertando sobre como os inovadores brasileiros sofrem com a falta de incentivos financeiros. “Olha isso aqui”, diz, apontando para um quadro na parede da sala de reuniões do hangar. “É o certificado que representa a medalha de ouro no Simpósio Internacional da Água, em Cannes. Lá fora eu sou premiado e aqui enfrento ceticismo em relação ao meu trabalho.” Sua ModClima ainda não está no azul. O faturamento no ano passado bateu em R$ 1,8 milhão, mas o que entra no caixa dissipa-se rapidamente, sob efeito da folha de pagamento de sete funcionários, dos gastos com combustíveis e manutenção dos dois aviões (além do Piper, há um Cessna 172) ou dos custos com os projetos piloto para cada uma das novas invenções. O orçamento da empresa não acompanha o ritmo de ideias de Imai.

No momento, por exemplo, a ModClima desenvolve a árvore-flecha. É exatamente o que o nome sugere. Em breve, o Cessna cortará os céus do Brasil, sobre regiões devastadas e de difícil acesso, e lançará – por meio de um sistema de balística – diversas setas de bambu que carregam mudas nativas acondicionadas em pequenos tubos biodegradáveis feitos de papel kraft (papelão). “Demoramos um bom tempo para calibrar a velocidade de lançamento e achar o material ideal para compor a flecha e os tubetes que levam as mudas”, conta Imai. O caso do bambu é curioso. Jogado do avião, o material mantinha a direção certa, exibia boa resistência e quase sempre acertava o alvo previamente estabelecido pela equipe da ModClima. Mas a flecha descia com tal velocidade que acabava completamente enterrada no solo, o que poderia comprometer a integridade das mudas. A intenção era que apenas espetasse o solo, o suficiente para fazer com que o papelão rompesse e colocasse a planta em contato com a terra. A saída encontrada por Imai foi colocar na parte de cima da flecha uma tira de papel, à guisa de rabiola de pipas, para freá-la. O problema foi resolvido. “Pensei em usar o bambu depois de ver os espetinhos de churrasco. E a embalagem de papelão para as mudas foi inspirada no formato da embalagem das batatinhas do McDonald’s”, conta, sorrindo, o inventor.

Quanto às mudas, são espécies nativas delineadas por botânicos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP. Acondicionadas por dez dias em estufas, as espécies recebem um hormônio enraizador – para acelerar o processo de metabolismo – antes de seguir para a embalagem cartonada. “Já fizemos algumas experiências e o resultado foi animador”, diz Majory Imai, filha de Takeshi e diretora da ModClima. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, Sabesp, gostou da ideia e vai financiar novos testes. As árvores-flechas serão lançadas neste mês em uma área de proteção de mananciais da empresa, localizada na cidade de Piracaia (SP), onde a ONG The Nature Conservancy já faz um trabalho de revegetação em larga escala. O esforço faz parte do projeto “Um Milhão de Árvores no Sistema Cantareira”, patrocinado pela estatal.

Infográfico_Alexandre Affonso
Água para lavouras
A Sabesp entrou para a história de Imai no biênio 2003/2004, período de escassez de chuvas no Sudeste, sobretudo em São Paulo. O engenheiro ficou sabendo – tarde demais – de uma concorrência para a produção de chuvas artificiais vencida por uma empresa que usava o processo químico. A grita dos ambientalistas foi tanta que a Sabesp cancelou o contrato. Era a deixa para Imai se apresentar, com seu método limpo e inédito. Desconfiada, a Sabesp pediu aos profissionais do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que conversassem com o nissei. Imai explicou o processo, convenceu os cientistas e os executivos e fez chover no Sistema Cantareira e no Alto Tietê. Dados da empresa mostram que a ModClima foi responsável por 31% das chuvas nos reservatórios da região entre outubro de 2003 e fevereiro de 2004. “Das 200 nuvens semeadas, 160 precipitaram”, diz Rodolfo Baroncelli, consultor da área ambiental da Sabesp.

A tabelinha entre a estatal e a ModClima prosseguiu nos anos seguintes, com uma chuvinha aqui, outra ali, até que a Sabesp pediu para Imai segurar um pouco a onda. São Pedro já estava fazendo sua parte, até demais. Imai pediu licença à sua parceira exclusiva e voou até o Nordeste em busca de clientes privados. Deparou-se com agricultores do oeste da Bahia e do Maranhão e com usineiros de Pernambuco, desesperados com a falta de água na região. De acordo com Jáson Torres, da Arrowplan, uma empresa que estimula a propriedade intelectual – fazendo a interface entre os cientistas e a iniciativa privada –, a atuação da ModClima na propriedade de dois usineiros pernambucanos no começo deste ano alcançou resultados fantásticos. “Dos nove voos que eles fizeram, oito provocaram chuvas”, afirma Torres. Ele conta que a ModClima mantém conversas adiantadas com a Secretaria de Recursos Hídricos de Pernambuco para um projeto que deve englobar os municípios que mais sofrem com os períodos de seca. Seria o primeiro contrato de alcance estadual da empresa de Imai.

Majory e Takeshi Imai sabem que há um potencial enorme pela frente. Ajudar no reflorestamento e fazer chuvas são atividades de grande relevância social, econômica e em sintonia com as políticas de sustentabilidade propostas pela Organização das Nações Unidas. No ano que vem, a ONU dará início à década de combate à desertificação. Dados atuais mostram que um terço do planeta é formado por terras secas (árida, semiárida ou semiúmida). “Existe uma tecnologia brasileira, limpa, já aplicável, e que funciona”, diz Majory. “Vamos levar essa proposta para a ONU e tentar conquistar o apoio da organização para o combate à seca.” Um encontro entre Majory e Luc Gnacadja, secretário executivo da UNCCD (sigla em inglês para a convenção de combate à desertificação da ONU), deverá acontecer ainda este mês na Alemanha.

Em 1971, Imai foi tratado como um herói, ao inventar um meio
de acabar com a ferrugem que atacou cafezais

Não chuva
Ao mesmo tempo em que buscam o apoio da ONU para os projetos de produção de chuva, os Imai estudam uma solução para outro problema climático: o excesso de chuva em algumas regiões. Se é possível produzi-las, por que não seria viável evitá-las? O desafio foi lançado por Majory e prontamente aceito pelo patriarca. “Meu pai estudou o assunto e veio com a solução”, diz ela. Softwares meteorológicos identificariam as formações e dariam a indicação necessária para que a empresa “antecipasse” a chuva – prevista para determinadas regiões – em áreas que pudessem minimizar os impactos de uma calamidade (oceanos, por exemplo). Igualmente possível é dissipar nuvens que pairam sobre áreas de risco, aplicando-lhes gelo seco. “Ele [o gelo] vai sublimar e abrir buracos nas nuvens, evitando a chuva.” O Inpe e o ITA trabalham em conjunto com a ModClima para tentar viabilizar a patente da “Não Chuva”. Segundo o professor Kleber Nacarato, do Inpe, o processo não causa danos ao clima, por ser pontual e restrito a uma pequena área.

Além de evitar a formação de tempestades que podem causar desastres e colocar cidades e população em situações de emergência, o projeto também visa a atender obras de infraestrutura a céu aberto, que necessitam de tempo firme para que possam ser concluídas. A Petrobras, preocupada com a construção de gasodutos, mostrou-se interessada no novo processo. As conversas entre as empresas estão na fase inicial.

Os Imai sonham com tempos melhores para a ModClima. E isto, segundo o patriarca, não significa a obtenção de lucros estratosféricos. “Não montei a empresa com o intuito de enriquecer. Sou um inventor e quero ver minhas criações sendo aplicadas na prática”, diz. Não foram poucas invenções. Em 1971, Takeshi Imai foi tratado como herói nacional quando sua empresa, a Hatsuta, inventou um pulverizador que combatia a ferrugem nos cafezais, um mal que ameaçava acabar com boa parte das plantações em São Paulo. Também se destacou ao apresentar para o mercado motosserras compactas e mais velozes que as convencionais. Tudo caminhava bem para Imai. Até que um jacarandá de 250 anos mudou a história do inventor. O episódio ocorreu em Linhares (ES), na década de 90. Imai levou duas dezenas de motosserras para serem testadas por potenciais clientes numa floresta da região. Queria provar que o equipamento era melhor do que o dos rivais. “Durante uma hora e meia vi minha máquina rasgando o tronco de um jacarandá de 250 anos. Ainda lembro do barulho ensurdecedor da árvore caindo e do silêncio profundo que se fez após o baque”, conta Imai. Pouco tempo depois, ele fechou as portas da empresa. “Decidi que minhas invenções deveriam servir à natureza.”

Foi então que começou a fazer chover. Mas só em dias de cumulus congestus.



Monday, October 5, 2015

O homem que faz chover

O brasileiro Takeshi Imai inventou um método e fazer chover. Deu certo Sua tecnologia foi adotada pela Sabesp e recebeu prêmio na França.

'Era um jacarandá de 250 anos. Aquilo mexeu comigo. Desde então, decidi que minhas invenções serviriam à natureza, e não contra ela.'  A derrubada da árvore de lei com a potente motosserra que sua empresa fabricava, na década de 1970, fez com que o engenheiro mecânico Takeshi Imai mudasse completamente de vida. A partir de então, abandonou a produção de motosserras e pulverizadores de inseticidas e dedicou-se ao estudo dos fenômenos meteorológicos.  Após 20 anos de pesquisa, desenvolveu teorias que o levaram a ser premiado na França pela mais promissora de suas invenções: um método ecológico de produzir chuvas localizadas, ou seja, no local exato em que são necessárias. 'É uma tenologia nova, única no mundo', explicou Imai.

O processo é simples, limpo e não utiliza aditivos químicos p como o iodeto de prata, proibido nos Estados Unidos desde os anos 1980 por ter causado graves doenças pulmonares na Bacia do Potomac.  A bordo de um avião bimotor (foto na página ao lado, com um reservatório de 300 litros de água potável acoplado, a equipe de Takeshi entra na nuvem e despeja água pura.  As gotículas de água já existentes na nuvem unem-se às novas aplicadas pelo avião, formando gotas maiores, que, devido ao peso, precipitam a chuva em 15 a 20 minutos.  Imai garante que, para cada litro de água semeado, são produzidos cerca de 500 mil litros de água de chuva ou 50 caminhões-pipa.

A ModClima, empresa que Imai fundou para produzir as chuvas artificiais, possui uma base no aeroporto de Bragança, onde também fica um potente radar para detectar as nuvens que podem ser 'semeadas', o único desse modelo na América Latina.  A tecnologia é 100% brasileira e começou a ser desenvolvida em 2001. No ano seguinte, foi apresentada no 12º Congresso Brasileiro de Meteorologia, em Foz do Iguaçu (PR). Em 2005, ganhou a Medalha de Ouro da Ciência da Água no 7º Simpósio Internacional da Água, em Cannes, na França.

A parceria com a Sabesp (Companhia de Abastecimento e Saneamento Básico do Estado de São Paulo) vem desde 2003, quando a ModClima ajudou a evitar o racionamento de água devido à escassez de chuvas nas regiões de mananciais. Segundo a Sabesp, Imai foi responsável por 31% das chuvas na Bacia do Sistema Cantareira, área de 3 mil quilômetros quadrados que vai de Camanducaia a Bragança Paulista e abastece 9 milhões de pessoas.  Das 200 nuvens semeadas, 160 precipitaram, contribuindo significativamente para encher os reservatórios de São Paulo.

Aos 67 anos, Takeshi Imai continua a estudar para aprimorar sua invenção e para encontrar novas formas de ajudar a natureza. Um de seus projetos é o reflorestamento aéreo com as 'árvores-flechas' - para ser lançadas de avião -, por meio do qual é possível plantar 50 mil mudas por hora.  'Onde não há vegetação, não há nuvens, e sem nuvens é impossível fazer chover, afirma Imai. 

'Minha preocupação não é ganhar dinheiro, mas achar soluções urgentes para deter a degradação do planeta e o acelerado processo de aquecimento global', diz Imai. 'As mudanças climáticas são muito mais sérias do que dizem.'  
Revista Welcome on Board, dez/2008 / jan/2009, págs. 58, 59)

Monday, September 28, 2015

Presença de espírito

Um descuido e a estudante Brunella Comineli, de 9 anos, teve o cabelo preso no bocal de aspiração de uma piscina de um condomínio de Itaparica, em Vila Velha. Brunella estava na piscina com outras amigas da escola, na comemoração de aniversário de uma delas, na cobertura do prédio.

A menina mergulhou e logo que o cabelo ficou preso pegou na perna de outra criança e assim pediu ajuda. Quando os adultos foram avisados, dois deles mergulharam na piscina para tentar soltar Brunella. Eles não conseguiram retirar o cabelo daquela sucção. Resolveram, rapidamente, cortá-lo, com uma faca de churrasco.

Os segundos embaixo d’água pareceram minutos para quem tentava soltá-la da sucção. Após ter seus cabelos cortados, a menina passou por massagem cardíaca para ressuscitação e chegou a ficar dois dias em coma induzido, além de cumprir 11 dias de internação no hospital. Felizmente, sobreviveu sem sequelas.

O pai da menina declarou:

“A minha filha foi salva por uma ação rápida. Agradeço a esse homem que conseguiu salvar a vida da minha filha a tempo. Graças a ele, Brunella está viva, ao lado de nossa família.”

Sunday, September 27, 2015

Sentados à beira do rio, dois pescadores seguram suas varas à espera de um peixe. De repente, gritos de crianças trincam o silêncio.
Ambos se assustam, olham em frente, olham para trás.
Os gritos continuam e nada. Veem então que a correnteza trazia duas crianças, pedindo socorro. Os pescadores pulam na água. Só conseguem salvá-las à custa de grande esforço. Mais berros quando estão prestes a sair do rio. Notam quatro crianças debatendo-se, tentando salvar suas vidas. Só conseguem resgatar duas e sentem, além do cansaço, a frustração pela perda.
Não refeitos, ofegantes, exaustos, escutam uma gritaria ainda muito maior. Desta vez, oito pequenos seres vêm sendo trazidos pela correnteza. Um pula na água, o outro vira-se rumo à estrada que acompanha a subida do rio.
O amigo que pulou na água grita:
- Você enlouqueceu, não vai me ajudar?
Sem parar o passo, o outro respondeu:
- Tente fazer o que puder. Vou verificar por que as crianças estão caindo no rio.

Combater o efeito é ser eficiente, mas combater a causa é ser eficaz.